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Pressão Alta
Depois de certa idade todo mundo sofre de pressão alta. Todo mundo é exagero,
mas são muitos. Metade dos brasileiros com mais de 50 anos é hipertensa;
proporção que atinge 60% depois dos 60 anos, e que não pára de aumentar daí
em diante.
Sua ocorrência se tornou tão banal que é comum ouvir: "Minha mãe está ótima,
tem só uns probleminhas de pressão". Probleminhas? Hipertensão é doença
traiçoeira, sobrecarrega e hipertrofia a musculatura do coração -
especialmente a do ventrículo esquerdo, encarregada de impulsionar o sangue
através da aorta, cujo segmento superior é empurrado para cima e para trás.
Nas fases finais, a hipertrofia pode ser tão exagerada que os médicos passam
a chamá-lo de "coração de boi".
Com o passar dos anos, as camadas musculares que contraem e dilatam as
pequenas e grandes artérias do organismo se tornam endurecidas: surge a
arteriosclerose, que aumenta a probabilidade de doenças cardiovasculares.
Cerca de 60% dos ataques cardíacos ocorrem em hipertensos; e 80% dos derrames
cerebrais, também.
Além desses eventos dramáticos, a hipertensão mal controlada pode lesar os
rins, a retina e as artérias periféricas e levar à insuficiência renal, à
perda da visão e a amputações de membros, respectivamente.
Por isso, se você ou algum familiar é hipertenso, preste atenção:
1) O coração é uma bomba incansável: em suas câmaras passam 5 a 6 litros de
sangue por minuto. Isso mesmo, por minuto;
2) A pressão arterial é conseqüência da "força" que o sangue faz contra a
superfície das paredes internas das artérias para obrigá-lo a circular;
3) A pressão não é constante no decorrer do dia: em repouso ou dormindo, com
os vasos relaxados, tende a cair; e a subir, quando fazemos esforço físico,
estamos nervosos ou sob estresse,
4) Ao medir a pressão você deve estar sentado, com o aparelho ajustado em seu
braço à altura do coração. Não fale. Descanse por 5 a 10 minutos em ambiente
calmo antes de efetuar a medida. Você não deve ter realizado esforço nos
últimos 60 minutos. Não fume nem ingira alimentos ou bebidas alcoólicas nos
30 minutos que antecederem a medida. Esvazie a bexiga e não cruze as pernas.
Se a pressão estiver alta, repita a medida dois ou três minutos depois;
5) É preciso muita cautela antes de rotular uma pessoa como hipertensa;
6) Você terá níveis ideais de pressão, quando a máxima estiver abaixo de 12,
e a mínima, abaixo de 8. Estará numa situação limítrofe quando a máxima
estiver entre 13,0 e 13,9 ou a mínima entre 8,5 e 9. Será considerado
hipertenso quando a máxima atingir 14,0 ou mais ou a mínima atingir ou
ultrapassar 9,0;
7) Aumentos de peso e de pressão arterial andam de mãos dadas. As
diminuições, também: nos hipertensos, para cada 1 kg perdido a pressão cai em
média 0,13 a 0,16 unidades (cm);
8) Muitos acham que aumento da pressão provoca dor de cabeça, tontura, peso
na nuca, mas, como nada sentem, passam anos sem medi-la. Está errado, a
doença é silenciosa. Só provoca sintomas em fases muito avançadas ou quando
ocorre aumento abrupto;
9) Em 90% a 95% dos casos não se consegue descobrir a causa da hipertensão;
10) A doença é mais comum em negros e seus descendentes;
11) O objetivo-alvo do tratamento é manter rigorosamente níveis que não
ultrapassem 12 x 8;
12) A melhor forma de controlar a pressão é por meio de mudanças no estilo de
vida: manter atividade física diária, evitar a obesidade, o consumo exagerado
de bebidas alcoólicas, alimentos gordurosos, doces, sal, reduzir o estresse
e, especialmente, deixar de fumar;
13) A prevenção das complicações através do uso de medicamentos anti-
hipertensivos foi um dos maiores sucessos da medicina contemporânea;
14) Se puder, escolha um médico atualizado com as inúmeras opções
terapêuticas disponíveis;
15) Assuma o controle de sua condição: compre um aparelho para medir a
pressão em horários variados;
16) Tome os comprimidos religiosamente nos horários prescritos. Em caso de
efeitos colaterais, entre em contato com seu médico, não faça ajuste de doses
nem interrompa o tratamento por conta própria;
17) Descontados os casos de hipertensão mais leve, é provável que você tenha
de tomar remédio pelo resto da vida. Não fique revoltado, dê graças a Deus
por eles existirem.
Fonte: Drauzio Varella
Estresse e Depressão
Na depressão, o existir é um fardo insuportável. "A tristeza é tanta que
acordo pela manhã e não encontro razão para levantar; só saio da cama porque
permanecer deitada pode ser pior", queixou-se uma senhora depois do terceiro
episódio da doença. "Na depressão, a vida fica por um triz", observou ela.
Depressão é a tristeza quando não tem fim, quadro muito diferente do
entristecer passageiro ligado aos fatos da vida. É uma doença potencialmente
grave que interfere com o sono, com a vontade de comer, com a vida sexual,
com o trabalho, e que está associada a altos índices de mortalidade por
complicações clínicas ou suicídio É a mais comum de todas as enfermidades
psiquiátricas, acomete mais as mulheres e apresenta caráter recidivante:
depois do primeiro episódio, a probabilidade de ocorrer outro é de 50%;
depois do segundo, sobe para 75%; e, depois do terceiro, para pelo menos 90%.
Se é uma doença psiquiátrica, que alterações acontecem no cérebro das pessoas
deprimidas?
Há 40 anos a explicação mais aceita tem sido a de que no cérebro dos
deprimidos haveria diminuição da produção de certos neurotransmissores
(substâncias que agem na transmissão de sinais entre os neurônios), entre os
quais a serotonina provavelmente exerceria papel preponderante.
A idéia de que baixos níveis de serotonina em certas áreas do cérebro seriam
a causa da depressão foi reforçada pela demonstração de que o aparecimento de
medicamentos capazes de aumentar as concentrações cerebrais desse
neurotransmissor (das quais as mais populares são a fluoxetina e a
sertralina) beneficiou grande número de pacientes.
Nos últimos dez anos, no entanto, a hipótese dos níveis inadequados de
serotonina passou a ser cada vez mais contestada. O principal argumento
contrário a ela foi o de que, embora concentrações diminuídas desse
neurotransmissor tenham sido detectadas no sistema nervoso central de vítimas
de tentativas violentas de suicídio, nunca foi possível demonstrar
deficiência de serotonina no cérebro de pacientes deprimidos.
Em edição especial, a revista "Science" traz uma discussão sobre o conjunto
de idéias mais aceito atualmente para explicar a depressão: a hipótese do
estresse.
Segundo essa hipótese, em resposta aos estímulos agressivos do ambiente, o
hipotálamo produz um hormônio (CRF) para convencer a hipófise a mandar ordem
para as supra-renais produzirem cortisol e outros derivados da cortisona.
Diversos trabalhos experimentais mostraram que esses hormônios do estresse
(CRF, cortisol e outros) prejudicam a saúde dos neurônios, porque modificam a
composição química do meio em que essas células exercem suas funções. A
persistência do estresse altera de tal forma a arquitetura dos circuitos
neuronais que chega a modificar a própria anatomia cerebral. Por exemplo,
provoca redução das dimensões do hipocampo, estrutura envolvida na memória, e
área fundamental para a ação das drogas antidepressivas.
Pesquisadores da Universidade de Emery, em Atlanta, demonstraram a existência
de períodos críticos na infância em que sofrer violência física, abuso
sexual, ausência de cuidados maternos e outros tipos de estresse emocional
podem conduzir à hipersecreção de CFR no hipotálamo, com conseqüente
liberação de cortisol pelas supra-renais, alterações associadas à depressão
na vida adulta. Os pesquisadores concluíram que "muitas das alterações
neurobioquímicas encontradas na depressão do adulto podem ser explicadas pelo
estresse ocorrido em fases precoces da infância".
De fato, no estudo clínico conduzido em Atlanta, 45% dos adultos com quadros
depressivos de pelos menos dois anos de duração haviam sido abusados,
negligenciados ou sofrido perda dos pais na infância.
Outro achado importante para definir o papel dos hormônios do estresse foi a
demonstração recente de que a injeção de CRF diretamente no cérebro de
animais de laboratório induz o aparecimento de quadros típicos de depressão e
de distúrbios de ansiedade, sugerindo que depressão e ansiedade tenham
mecanismos comuns e possam ser induzidas por fatores semelhantes. Talvez seja
essa a justificativa para a maioria das pessoas com depressão na vida adulta
referir personalidade hiper-ansiosa na infância e adolescência.
Neurocientistas proeminentes defendem a teoria de que o mecanismo através do
qual o estresse induziria depressão estaria ligado ao hipocampo: os hormônios
do estresse suprimiriam o nascimento de novos neurônios nessa estrutura
crucial para o processamento da memória. Tal suspeita ganhou ímpeto
especialmente depois da publicação meses atrás de uma descoberta inesperada:
depois de duas ou três semanas de tratamento com drogas antidepressivas
começam a nascer novos neurônios no hipocampo (neurogênese). Esse achado
explicaria também por que, apesar de os antidepressivos elevarem
imediatamente os níveis cerebrais de serotonina, sua ação benéfica só se
manifesta semanas mais tarde.
O conhecimento da arquitetura dos circuitos cerebrais envolvidos na depressão
adquirido nos últimos dez anos provocou uma explosão de ensaios terapêuticos
com drogas dotadas de mecanismos de ação muito diferentes das atuais. Estamos
no limiar de descobertas que revolucionarão o tratamento dessa enfermidade
tão debilitante.
Fonte: Drauzio Varella
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